
A pintura de Márcia Falcão é tema de um estande individual da Fortes D’Aloia & Gabriel na Frieze London 2026. A apresentação dá continuidade à investigação da artista sobre o corpo, ao mesmo tempo que situa a própria pintura — sua densidade material, construção cromática e capacidade de fazer uma figura ganhar coesão ou se dissolver — como tema e método.
Nascida e criada nos subúrbios do Rio de Janeiro, Falcão aborda as realidades sociais inscritas nos corpos das mulheres — sobretudo das mulheres negras — cujas vidas transcorrem nas periferias urbanas do Brasil. Nesta nova série Camuflada, apresentada pela primeira vez, as figuras ocupam a tela de modo enfático, mas as anatomias fragmentadas, os contornos interrompidos e a fusão entre corpo e fundo impedem que se tornem inteiramente disponíveis ao olhar. A proteção se constrói não pelo desaparecimento, mas por meio dessa resistência à plena legibilidade.
Falcão aborda a carne pela pintura e com a própria tinta, em vez de tratar a técnica como meio neutro de representação. Um único pigmento de tonalidade terrosa estabelece a base cromática, modulada em violetas e azuis, sombras densas e lampejos de luz. Em passagens opacas e translúcidas, o pigmento se acumula, se rarefaz, mancha e é arrastado pela tela, fazendo da superfície tanto imagem quanto registro de sua construção. A luz emerge desse campo material, revelando um contorno ou membro antes de recuar para a sombra. O resultado é um espaço pictórico turbulento, no qual carne, luz e fundo trocam propriedades, permitindo que a materialidade da pintura adquira peso conceitual e simbólico.
O título da série remete à “camuflagem disruptiva” (dazzle camouflage) aplicada às embarcações da Marinha Real britânica durante a Primeira Guerra Mundial: padrões geométricos fragmentados concebidos não para ocultar os navios, mas para dificultar estimativas de sua distância, direção e velocidade. Falcão transpõe esse princípio óptico para uma política de visibilidade dos corpos. A figura se faz insistentemente presente, enquanto seus limites, posição e movimento escapam à fixidez. A camuflagem torna-se, assim, uma estratégia ativa, e não uma retirada — uma defesa provisória em meio à exposição e um modo de os corpos representados manterem o controle sobre as condições de sua aparição.
A apresentação na Frieze vem na sequência da participação individual de Falcão, que reuniu cinco pinturas de grande escala na 36ª Bienal de São Paulo – Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática (2025). Camuflada desdobra essa pesquisa sobre o corpo e os limites da figuração em uma negociação mais complexa entre aparição, ocultamento, vulnerabilidade e autoproteção.

