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João Maria Gusmão

MARÉ-BAIXA!

12 Nov 2026 – 23 Jan 2027


Abertura

12 Nov, 18h–21h


FDAG Barra Funda


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Press Release (PT)

Press Release (EN)

O press release abaixo foi escrito pelo artista português João Maria Gusmão, em ocasião do anúncio de sua nova exposição MARÉ-BAIXA, com abertura dia 12 de novembro na FDAG Barra Funda.

 

Excelentíssimo povo brasileiro, a FDAG apresenta (raios, relâmpagos & gongo): MARÉ-BAIXA!, uma exposição de arte nova e recente de João Maria Gusmão, com um conjunto alargado de fotopinturas e um conjunto singelo de esculturas fotográficas!

Gusmão começa o dia com um pequeno-almoço frugal. Vai para o estúdio e fecha-se no laboratório entre luvas cirúrgicas, química de p&b, química de cor e banho-maria. Um dia na praia equivale a um mês no quarto escuro, sem vitamina D e fumos tóxicos. Para o artista alquimista, o tempo estica e encolhe. O termómetro e o cronómetro são a paleta do pintor fotográfico. Mergulha-se o papel na tina, a agitação é constante, a maré vai, a maré vem, a imagem aparece entre as ondas como uma doença de pele contagiosa. Gusmão, por prudência, lava as mãos com frequência: água e detergente. À noite, hidrata a pele com creme barato. O dia seguinte será igual ao dia anterior.

De há uns anos a esta parte, o artista especializou-se num processo alternativo que prescinde do negativo fotográfico. A câmara está montada no estúdio, ele enquadra o assunto, prepara a iluminação, calcula a fotometria, etcétera. Quando está tudo num brinco, fuma um cigarro, respira fundo e faz clic no disparador: a luz atravessa a lente e projecta a imagem no papel cromogénico fotossensível. Mas não são favas contadas. Sete banhos de química mais tarde, tem um positivo que provavelmente terá de refazer. Uma imagem única, é verdade, como na Polaroid, mas, digamos, cem vezes maior e que dá cem vezes mais trabalho. De fotografia instantânea não tem nada.

Não faz mal. A obra é meditativa.

Maré-Baixa conjura dezasseis imagens e uma edição especial feitas a partir de collages sur carton, recorrendo a um truque antigo da Disney para fazer cartoons. Quando o Sr. Walt fez Branca de Neve e os Sete Anões, percebeu que, se dispusesse o foreground, o subject e o background a diferentes distâncias da lente da câmara, os desenhos animados ganhavam uma segunda dimensão: a atmosférica!

É o que Gusmão faz nas suas obras com um critério próprio. O princípio é diagramático, mas a lógica das composições é diorâmica. As imagens são janelas, Gusmão não o esconde, pelo contrário, enfatiza-o! O artista tem uma ideia, elabora um projecto, constrói uma maquete e fotografa-a da maneira acima descrita, como quem dá um tiro no escuro ou lança o barro à parede. As imagens apresentam-se como poemas visuais, uma espécie de mecânica de adivinhas, imagens simultaneamente retinianas e cerebrais.

No seu conjunto, coalescem, pictóricas e saturadas: vultos atrás de cortinados, movimentos congelados, análises estruturalistas da percepção imaginada nos seus limites visuais: o pôr-do-sol atrás da cortina, o farol de madrugada, a lâmpada em forma de lua num quarto da cor do céu estrelado, etcétera e tal e coiso. Paralogias de perceptos e paradoxos. E, repare-se: estas imagens congregam vários outros aspectos das divagações intermediais do artista. Por um lado, relacionam-se com o vocabulário da lanterna mágica e da gravura japonesa; por outro, revelam uma certa tensão cinematográfica, dentro e fora do ecrã, que atravessa outras experimentações analógicas do artista com o médium do filme.

Desfoca aqui, foca acolá, sobreexpõe esta e aquela superfície enquanto o outro detalhe fica obscurecido. Os sais de prata dão lugar aos corantes CMY. Até certo ponto, a densidade acrescenta saturação à cor; depois, perdendo luminosidade, retêm só gradações de preto-ciano, preto-magenta e preto-amarelo. O repertório do artista é, por demais, comprido, apesar de os recursos parecerem simplificados. Deve ser aquele je-ne-sais-quoi da estilização.

As esculturas apresentadas são baseadas nas próprias maquetas que estão na origem das imagens. Por aqui se pode adivinhar onde Gusmão coloca a sua câmara de vinte por vinte e quatro polegadas, fabricada à mão na República Checa. Desta feita, essas maquetes são ampliadas e refeitas em chapa de ferro termolacada, para aguentarem a intempérie, o vento, o sol, o granizo e a chuva ácida. Passam assim do espaço protegido da moldura para o espaço aberto do mundo, num movimento que contradiz a fixação fotográfica do instante. As esculturas são, na realidade, a matriz da imagem: congeladas para todo o sempre no tempo ou até serem sucata.

Em MARÉ-BAIXA!, o tema náutico pervade o horizonte das obras. Sabe-se, desde Euclides, que as linhas paralelas só se encontram no infinito. É legítimo perguntar: será possível viajar sem movimento, isto é, só no pensamento? O observador tem à sua disposição binóculos. Pode usá-los, se quiser, para observar a paisagem do lado de lá da janela.