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Marina Rheingantz
Mauro Restiffe

Rebote

27 Abr – 15 Jun 2019


Em colaboração com Rodrigo Moura


Abertura

27 Abr, 15h–18h


Carpintaria

Rua Jardim Botânico 971,
Rio de Janeiro

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A Carpintaria tem o prazer de apresentar Rebote, exposição que promove o encontro entre as pinturas de Marina Rheingantz com as fotografias analógicas de Mauro Restiffe. As obras orbitam em torno de interesses comuns aos dois artistas, como a paisagem e a própria pintura, e sugerem percursos narrativos à medida que aproximações e contrastes se revelam. Excertos de séries recentes de Restiffe, como a realizada na vila de Santo Sospir (2018), alternam-se entre registros coloridos e em preto-e-branco. Rheingantz, por sua vez, exibe pinturas a óleo, do pequeno ao grande formato, ao lado de um conjunto de bordados que atuam como a tradução têxtil de sua linguagem pictórica. O dueto, que conta ainda com a colaboração do curador Rodrigo Moura, dá continuidade ao programa experimental da Carpintaria, cuja vocação é a proposição de diálogos entre diferentes criadores, linguagens e formas de expressão.

 

 

 

Rebote: correspondências a três

Rodrigo Moura

 

Pai: Que coisas vermelhas você conhece?

Filha: Amarelo.

 

Há pelo menos três maneiras de se fazer uma exposição.

 

…assim como as memórias de viagem se empilham, os souvenirs disputam nichos escondidos na casa (na caixa, na estante, na cabeça, na sala de exposições). O bowl de cerâmica creme, comprado no mercado de pulgas de uma capital europeia e trazido no fundo da mala enroladinho numa camiseta branca roubada de um namorado, guarda pedras roladas de basalto colhidas na rua de um condomínio de artistas na China; ao lado, uma rocha vulcânica crispada, reminiscência de um vulcão ainda em atividade, a 2.829 metros de altitude, na ilha do Fogo, arquipélago de Cabo Verde…

 

Rebote se refere ao desafio de estabelecer diálogos e correspondências a três, aproximando práticas em pintura, fotografia, escrita e curadoria. Os pontos de partida são os próprios trabalhos, assim como experiências anteriores de colaboração entre os participantes. Não se estabelecem regras a princípio, mas as associações são construídas a caminho. As aproximações podem ser de caráter formal, com paridades entre as obras, ou abranger aspectos mais amplos. O espírito entrópico da pintura de Marina Rheingantz é o princípio animador inicial, diapasão das relações estabelecidas. Uma pintura de paisagem sempre em vias de se derreter, transformando em pura matéria inanimada aquilo que antes de ser forma já deseja ser figura, qualquer figura. Uma chuva que parece um elefante. Um guarda-chuva de sentidos. As imagens extraídas do arquivo de Mauro Restiffe são atestado da elasticidade espaço-temporal que determina sua prática. Os tempos se embaralham, as especificidades de lugar e data se interrogam numa espécie de sala de espelhos, não por acaso um de seus tropos. A escrita crítica e criativa é contraponto às imagens, voz entoada em conjunção aos temas principais. Uma escrita que se decanta no tempo, como nos fragmentos que compõem e interrompem a narrativa principal deste texto, sem que possam se separar dele, remontando às relações entre a frente e o verso dos bordados e entre a luz e a sombra das fotografias. Escrita manual, artesanal, residual, serragem de letras e palavras. Roteiro a posteriori.

 

…esse pensamento me veio claro depois da exposição na Biblioteca, quando não havia espaço para falar em técnica e todo mundo estava distraído demais com ideias sobre afeto e intimidade na fotografia e outras generalidades. A imagem mental que usei como antídoto a essa tendência foi a de um olhar que transferisse os atributos do aparato fotográfico diretamente para a visão humana. Enxergar o mundo por meio da fotografia, escolher a sensibilidade da película, resumir tudo às verticais e horizontais do quadro. Num sonho que tive na mesma época, eu visitava uma paisagem montanhosa na estrada de Ouro Preto e via tudo em preto e branco, com o contraste ligeiramente acentuado e apenas um ponto de cor no meio das rochas e da vegetação do cerrado. Uma cabana de madeira vendendo película, pura luz amarelo Kodak…

                                                                  

Rebote se refere aos efeitos reativos do contato de um corpo com o outro, “salto ou ricochete de um corpo elástico quando se choca com outro”. Justapor as fotografias de Restiffe às pinturas de Rheingantz pressupõe sublinhar algumas proximidades. Estas se manifestam aqui pelo sentido de lugar e de paisagem, e também pelo interesse por luminosidades atmosféricas. Efeitos reativos são inevitáveis nas disparidades de materialidade das pinturas, bordados e fotografias. O elemento fotográfico se camufla mais nas pinturas de Marina do que o contrário. Não há correspondência exata, mas antes, ecos.

 

Ocorrências de afinidades, por exemplo, nos desenhos de Jean Cocteau na Vila de Santo Sospir com os fios do bordado Uma passadinha (2018); nos confetti de fim de noite com as pinceladas granuladas; nas montanhas verticais com as montanhas horizontais; nos contra-luz cegantes; na linha das pinturas de Lorenzato penduradas no ateliê de Ricardo Homen com a linha de obras menores penduradas na sala da Carpintaria; no jóquei fotografado em Itália com aquele logo ali; na imagem em frangalhos de Minas Gerais: ressonância de Brumadinho na matéria lama das pinturas de Rheingantz, nostalgia barroca na Congonhas de Restiffe, um retrato na parede deste texto.

 

… as datas passam. Um dia quando, não dá – esta paisagem aparecerá aos seus olhos. Nova ou velha, que importa. É o testemunho – e o será nesse dia – de um céu estranho e vivido, de um romancista cujo único amor foi viver – passar – que é a paixão de todas…*

 

 

Rodrigo Moura é curador, escritor e editor. É autor da monografia Marina Rheingantz – Terra líquida (Cobogó, 2016), foi curador da exposição Mauro Restiffe – Álbum (Pinacoteca de São Paulo, 2017) e colaborou nesta exposição a convite dos artistas.

 

 

 

Sobre os artistas

 

Marina Rheingantz (Araraquara, 1983) vive e trabalha em São Paulo. Suas exposições individuais recentes incluem: Várzea, Bortolami Gallery (Nova York, 2018); Galope, Zeno X Gallery (Antuérpia, 2017); Terra Líquida, Galeria Fortes Vilaça (São Paulo, 2016); Dot Line Line Dot, Nichido Contemporary Art (Tóquio, 2016). Entre as mostras coletivas, destacam-se: On Landscapes – Biennial of Painting, Museum Dhondt-Dhaenens (Deurle, Bélgica, 2018); Mínimo, múltiplo, comum, Estação Pinacoteca (São Paulo, 2018); Projeto Piauí, Pivô (São Paulo, 2016); Soft Power, Kunsthal KAdE (Amersfoort, Holanda, 2016); Prêmio PIPA, MAM Rio (Rio de Janeiro, 2015). Seu trabalho está presente em importantes coleções como: Museu Serralves (Porto), Taguchi Art Collection (Tóquio), Pinacoteca do Estado de São Paulo, MAM Rio (Rio de Janeiro), Itaú Cultural (São Paulo), entre outras. Rheingantz terá também uma exposição em junho no Galpão da Fortes D’Aloia & Gabriel, em São Paulo.

 

Mauro Restiffe (São José do Rio Pardo, 1970) vive e trabalha em São Paulo. Dentre suas recentes exposições individuais estão: São Paulo, Fora de Alcance, Instituto Moreira Salles (São Paulo, 2018 – Rio de Janeiro, 2014); Álbum, Estação Pinacoteca (São Paulo, 2017); Post-Soviet Russia 1995/2015, Garage Museum (Moscou, 2016); Obra, MAC-USP (São Paulo, 2013). Destaque ainda para suas participações em: Bienal de Gwangju (2018), Trienal de Aichi (Nagoya, Japão, 2016); Bienal de Cuenca (Equador, 2014); Bienal de São Paulo (2006); Panorama de Arte Brasileira (São Paulo, 2013 e 2005). Sua obra está presente em diversas coleções, como: MoMA (Nova York), Bronx Museum of the Arts (Nova York), SFMOMA (San Francisco), Tate Modern (Londres), Inhotim (Brumadinho), Instituto Moreira Salles (Rio de Janeiro), MASP (São Paulo), MAC-USP (São Paulo), MAM (São Paulo), Pinacoteca do Estado (São Paulo), entre outras. Em novembro deste ano, Restiffe realizará ainda uma exposição na OGR Torino, na Itália, para a qual está desenvolvendo um novo projeto.

 

 

 

* Trecho de dedicatória do escritor Lúcio Cardoso em desenho de 1950.

Imagens

Vistas da exposição
Obras

Vistas da exposição

Obras

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